Diário de Bordo Entrada 001
Causa perdida
Vamos lutar por uma causa perdida: devolver à vida pública brasileira o gosto pela conversa séria. Um filme de 1939 explica por quê.
“Acho que esta é só mais uma causa perdida, senhor Paine. Vocês não entendem nada de causas perdidas. O senhor Paine entende.”
Esta revista vai lutar por uma causa perdida. Dizemos isso logo no primeiro registro do Diário de Bordo para que ninguém se engane depois.
A causa é simples de enunciar. Queremos devolver à vida pública brasileira o gosto pela conversa séria: aquela em que as perguntas vêm antes das respostas, em que discordar não exige pedir licença e em que ninguém é obrigado a escolher entre dois pacotes fechados, nenhum dos quais fala por ele. Pelos padrões de hoje, é uma causa perdida. Escolhemos essa causa mesmo assim.
Revimos Mr. Smith Goes to Washington (A Mulher Faz o Homem), de Frank Capra, porque é o filme que melhor explica essa escolha.
O filme começa com uma vaga. Um senador morre no meio do mandato, e quem escolhe o substituto é Jim Taylor, dono de jornais e de boa parte dos políticos do estado. Taylor tem um negócio a proteger: uma represa em Willet Creek, escondida dentro de um projeto de lei, em terras que ele comprou por meio de laranjas. Precisa de um senador que assine sem ler.
O escolhido é Jefferson Smith, chefe de um grupo de escoteiros. É jovem, sabe de cor o discurso de Gettysburg e não entende nada de orçamento. A máquina o escolhe por isso. Em Washington, Smith fica sob a tutela do senador Joseph Paine, velho amigo de seu pai. Os dois tinham começado juntos, brigando contra interesses poderosos. Paine foi se acomodando e hoje deve a carreira a Taylor.
O problema começa quando Smith propõe um acampamento para meninos no mesmo vale da represa. Sem saber, atrapalha o negócio de Taylor. Paine tenta convencê-lo a desistir: “Este é um mundo de homens. É um mundo brutal, Jeff, e não há lugar para você nele.” E o aconselha a deixar os ideais do lado de fora da porta, “como você faz com as galochas”. Smith não aceita. A máquina, então, forja documentos contra ele, Paine confirma a mentira no plenário, e o Senado abre um processo para expulsá-lo. A causa de Smith está perdida.
Resta a ele um último recurso: pedir a palavra e não devolver. Saunders, sua secretária, que conhece o Senado por dentro, ensina-lhe como funciona a obstrução. Smith fala por quase um dia. Os colegas leem jornal, conversam, saem da sala. No fim, Paine manda trazer ao plenário cestos de telegramas contra Smith, todos fabricados pela máquina de Taylor. Exausto, Smith deixa de falar com o plenário e se vira para Paine. Lembra a ele que o próprio Paine, um dia, dizia que as causas perdidas eram as únicas pelas quais valia a pena lutar.
“E ele lutou por elas um dia, pelo único motivo pelo qual alguém luta por elas: por causa de uma única regra, simples e clara. ‘Amai o próximo.’”
Smith diz que vai continuar ali, mesmo que a sala se encha de mentiras, e desaba no chão do plenário. Paine sai, tenta se matar, é impedido pelos colegas e volta gritando: “Não sou digno de ser senador! Não sou digno de viver! Expulsem a mim! Expulsem a mim, não a ele!” O filme termina segundos depois. Não mostra a votação nem o que acontece com Taylor.
Por que as causas perdidas são as únicas que valem a pena? O filme dá quatro respostas, e todas servem para nós.
A primeira é que as causas ganhas não precisam de ninguém. Taylor não precisava de coragem para aprovar a represa. Tinha jornais, votos e um senador no bolso. Quem luta por uma causa já vencida está apenas do lado de quem venceu. Só uma causa perdida exige que alguém de fato apareça.
A segunda é que a máquina depende de que você ache a causa perdida. Taylor não venceu Smith com argumentos. Tentou vencê-lo com cansaço: o plenário de costas, os telegramas falsos, a imprensa da máquina repetindo a versão dele. Tudo foi feito para convencer Smith de que não adiantava. Uma causa só está perdida de verdade quando quem luta por ela vai embora. Enquanto Smith ficou na tribuna, ela ainda estava em disputa.
A terceira é que a luta por uma causa perdida muda quem assiste. Smith não convenceu o plenário. Convenceu Paine, o único homem que sabia a verdade e podia dizê-la. E não convenceu com um argumento novo. Devolveu a Paine as palavras que o próprio Paine dizia quando era jovem. “Ele disse uma vez que eram as únicas causas pelas quais valia a pena lutar”, lembra Smith. A causa perdida de Smith fez Paine lembrar da causa que ele tinha abandonado.
A quarta é a mais dura. Quem desiste das causas perdidas vira Paine. Paine não começou corrupto. Começou ao lado do pai de Smith, brigando pelas mesmas coisas. Foi fazendo concessões razoáveis, uma de cada vez, sempre com o argumento de que a outra opção era perder tudo. Trinta anos depois, mentia no plenário para proteger um empreiteiro. Os ideais tinham ficado, como ele próprio ensinou a Smith, “do lado de fora da porta”. Ninguém vira Paine de uma vez. Vira aos poucos, cada vez que conclui que certa causa não vale a pena porque está perdida.
O próprio filme foi tratado como causa perdida. Na estreia, em Washington, o líder da maioria no Senado, Alben Barkley, o chamou de “silly and stupid”. Na Europa, os regimes autoritários o proibiram. Em 1942, quando os alemães baniram os filmes americanos na França ocupada, vários cinemas escolheram Mr. Smith para a última sessão. Naquele momento, a liberdade na França parecia uma causa perdida. Os donos daqueles cinemas exibiram o filme mesmo assim.
No Brasil, em outubro de 1939, não havia Congresso. Getúlio Vargas tinha fechado a Câmara e o Senado em novembro de 1937, com o Estado Novo, e eles só reabriram em 1946. Durante esses anos, a volta do Parlamento também parecia uma causa perdida.
A nossa causa perdida tem endereço. São os lugares onde um país deveria pensar sobre si mesmo: a universidade, a imprensa, a crítica, os prêmios, os conselhos.
Nesses lugares, a máquina de Taylor raramente precisa forjar documentos. Basta que certas perguntas pareçam deselegantes, que certos autores deixem de ser lidos e que certas conclusões cheguem antes da pesquisa. Ninguém proíbe nada. A conversa apenas se estreita, e quem não cabe nela aprende a ficar calado.
Ela também tem os seus Paines: gente culta, que começou com perguntas honestas e foi trocando cada uma delas por uma posição segura. Não agem por maldade. Repetem o que a casa espera, porque a alternativa parece ser perder tudo.
Do lado de fora fica quem paga a conta. O estudante que percebe que há coisas que não convém dizer em sala. O leitor que nunca pisou numa universidade e nota que ninguém escreve para ele. E muita gente que, na hora de votar ou de opinar, se vê diante de duas opções ruins, sem que nenhuma delas tenha uma posição que de fato a represente. Para essa gente, a política virou a escolha do mal menor, e a cultura, um clube do qual não se é sócio.
A máquina deixa falar e não ouve. Smith tinha mandato e direito à palavra, e o Senado lhe virou as costas. Quem já passou por um departamento, uma banca, um conselho ou uma reunião de partido conhece a cena. A decisão já foi tomada antes, num almoço para o qual você não foi chamado.
E ela produz desencanto. Quem acha que a conversa já está decidida deixa de aparecer para ela, e é exatamente disso que a máquina precisa.
Não vamos responder com outro pacote fechado. O antídoto que conhecemos é mais antigo: ler os clássicos com atenção, levar a sério o argumento de quem discorda, exigir de cada texto a precisão de uma boa crítica. Smith não enfrentou o Senado aos gritos. Enfrentou-o lendo em voz alta os textos que todos ali tinham jurado defender.
Sabemos o risco de quem fala em limpar a política. No Brasil, foi com essa promessa que veio o Estado Novo. Smith nunca pede para fechar o Senado nem diz que fala pelo povo inteiro. Ele estuda o regimento e cobra que a casa cumpra as próprias regras. A causa pela qual vamos lutar é a das instituições funcionando, e não a de alguém que prometa passar por cima delas.
Em meados dos anos 1930, já famoso, Capra ouviu de um amigo que os talentos que tinha não eram dele. Eram presentes de Deus, e deixá-los parados ou gastá-los em coisas vazias era uma ofensa a quem os tinha dado. Capra contou que isso mudou o rumo do seu trabalho. Depois daquela conversa vieram Mr. Deeds Goes to Town, Mr. Smith Goes to Washington e It's a Wonderful Life.
Esta revista nasce de algo parecido. Quem a escreve passou pela universidade e muitas vezes se sentiu sufocado lá dentro. Vimos pesquisa boa ficar na gaveta. Vimos debates decididos antes de começar. Vimos a lógica de Taylor e Paine funcionando em departamentos, bancas e conselhos. Ouvimos muitas vezes que mudar aquilo era causa perdida. Aprendemos a pesquisar, apurar e escrever, e esses talentos ficavam parados esperando uma vez que não chegava. Resolvemos usá-los.
Sabemos que vamos perder muitas vezes. Smith também perdeu quase tudo antes da última cena. Mas as causas ganhas não precisam de nós, e a única forma de uma causa perdida ficar perdida de vez é todo mundo ir embora. Não vamos.
Prometemos sempre lutar pelas causas perdidas.
Receba os próximos textos
Deixe seu e-mail e avisaremos quando sair um texto novo no Diário de Bordo e quando a primeira edição d'O Bojador chegar.
Usamos seu e-mail só para esses avisos. Para sair da lista, escreva para redacao@obojador.com. Usa leitor de notícias? Assine o feed.